terça-feira, 10 de julho de 2012

O meu cabelo no seu jeito que é só seu!...

Pixaim, fino e leve  que nem paína, de beleza impar,  resistente como ele só  frente à tantas malevolências, que nele operei a partir de minhas adesões, forçadas às "facilidades  impositivas" da  ditadura de um  padrão de beleza, o do "alisar",  do "soltar as raízes" e do  "cachear". Firme e disposto,  coloca-se  mais uma vez em condições de recomeçar  uma nova  florada, um novo desabrochar.

Esse é o meu cabelo! Que ao me desafiar, tem me ensinado a amá-lo!

É preciso que se diga, o meu cabelo  no seu jeito que é só seu,  jamais  se curvou aos meus investimentos de lográ-lo  em minhas empreitadas de tê-lo incluido, enquanto cabelos "lisos" e "fáceis de pentear", reagindo a todos os produtos e técnicas para  este propósito.  

Tem me dado o troco, através dos custos altos, benefícios nem tanto, diante da frustração contumaz  por  danificá-los com produtos altamente tóxicos e agressivos, não assumidos e releváveis muitas vezes.  Mas o  delicado mesmo, no lidar com tudo isso é o  encontro com o real, quando "a casa cai!...", o  desmascaramento se dá  através  dos muitos espelhos, que refletem no crescimento de suas raízes e ou  encolhimentos e perdas de modelagens, como que resultante  das ações  do tempo -   chuva  e vento,   o que realmente é! Um belo delicado pixaim.

E fico a remoer, nas muitas articulações de um querer compreender, em que lugar  na história de minha existência, dei de encontro com  um olhar, que de pouca expressão à imagem que  ali se espelhou, por pouco não me equivocou?! Sabe se lá!!!..., só sei que alguma coisa há!.., por  mas que  eu rejeite atualizar, enquanto  espelho a que recorro para me mirar!


A importância que o cabelo, desempenha na constituição de uma  percepção de identidade, é muito forte, assim   como o olhar do outro para este  processar.  É através desse olhar  que nos constituímos,  nos reconhecemos, nos reafirmamos e nos instituimos, logo olhar-se através de olhares significativos são necessários e mais que preciso! São estruturantes.

O reconhecimento que hoje faço, do meu cabelo no seu jeito que é só seu! É  marco divisor consciente de mudanças imprimidas  em minha vida, é  de empoderamento mesmo!

Principalmente, quando nos encontros da vida ainda me são impingidos, espelhos turvos, que pouco auxiliam  refletir a imagem afirmativa  de minha singularidade, mas que diante do silêncio indiferente desse refletido, já não me fazem tanta questão. Na procura de espelhos outros para  me espelhar,  espelhos estes que podem, não ser tão  límpidos na devolução da imagem apreendida, mas  é um apreço bom de experimentar.  Quanto aos espelhos  opacos, que  em sua função de refletir o  transmitido tal como recebido, necessários se faz, por contribuir num   refazimento que me põe a caminhar.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Encontro Marcado

Desta vez o encontro marcado, após 34 (trinta e quatro) anos depois! Sim, trinta e quatro anos depois,  se deu na casa de Mirian Cardoso.

Quando lá cheguei, Elias, Heraldo com a Fátima, Zé com a Márcia já se encontravam na sala de jantar, sentados ao redor de uma mesa, em seguida chegou  a Elisiária, sem suas irmãs..., que em ausência, presentes estavam, bem como   a Vilma que fora à festa junina de sua netinha, a Vandira e o Carlos, o Adilson; o Paulo que mudara para  outro estado; a Ísis que não estava muito bem; o Cleber Maciel e o Samuca já falecidos,  os moradores do Morro do Quadro que perdemos o contato, os primeiros estudantes africanos que na UFES aportaram..., nossos familiares e muitas outras pessoas,   todas devidamente  reverenciadas como partícipes de um dado tempo de uma história  instituída.

Na tarde, "vitrola" ops! DVDs rolando, tocando sambas de máxima qualidade sem parar!!!  Pixinguinha, Clementina de Jesus, João Nogueira, Beth Carvalho, Dona Ivone Lara... à Diogo Nogueira! Senti no peito, uma forte emoção,  uma alegria quase juvenil por reencontrá-los, de poder abraçá-los e beijá-los com o afeto espontaneo de quem já consegue  melhor  externá-los.

Foram logo me avisando, destas vez o nosso encontro vai ser aqui mesmo, apontando-me  uma cadeira em volta de uma mesa redonda da sala de jantar da residência da Mirian, que fica  num prédio de Bairro de classe média,  o que rimos gostosamente, pois toda fala naquele momento tinha um sentido, o de nos remeter de imediato ao um tempo vivido. O de quando  nos reuniámos nas lajes das casas e quintais dos Bairros da  Vila Rubim, Consolação, Santo Antônio, Santa Teresa, Morro do Quadro..., nos idos de 1978/79/80...,  para  então exercitarmos o contato com a nossa auteridade de  negros e negras capixabas, através da militância no MNU - Movimento Negro Unificado. 

Animadamente a conversa rolou solta, entre um  pé-dé-moleque e outro, uma fatia de cuscuz, um minguau de tapioca, um caldinho de pinto  na pimenta,  uma torta de bacalhau, um bom vinho, sucos  e  paçoquinhas, permitindo-nos  transgredir, somente por um dia, as recomendações médicas, que ora  fazem parte de nossas cartilhas do bem viver, rsrsr!... 
   
Nos reportamos aonde tudo começou,  a nossa inserção no espaço acadêmico da UFES -  Universidade Federal do Espírito Santo,  negros num universo eminente de brancos. O como fomos nos encontrando, na busca identificatória de sobrevivência, frente a  poucos iguais e muitas adiversidades.  

Destacando-se em  cada relato, as lembranças da contribuição significativa do professor Cleber Maciel, negro assumido que após ter concluido seu mestrado em História na Universidade de Campinas, retornou à catédra na UFES e generosamente partilhava o seu saber, seus livros seus discos, sua casa, a  sua pasciência para acolher-nos em nossos estranhamentos, frente a um real  fragmentado  e desafiante, que nos equivocava, mas   não o suficiente para abrirmos mãos de estar estudante nos cursos da UFES.

Rememoramos as nossas histórias pessoais, revisitando a casa de nossos pais, valorizamo-os  pelo investimento afetivo e materiais recebidos destes.  Revalidando a matriz, filhos e filhas de trabalhadores que somos, que dentre os muitos   legados recebidos o de  acesso  aos estudos, constitui de  alicerce determinante em nossas vidas. Legado este que de forma amorosa e incondicional,  tem sido repassado aos nossos filhos e filhas.

Sim, foi um belo, oportuno e feliz encontro, que em seu termino, prometemos  repeti-lo o mais breve possível, para manter a quebra da escrita dos trinta e quatro anos que ficamos sem nos encontrar, pois  constatamos que ainda temos muito  o que  falar e escutar!

Que assim seja!...







sexta-feira, 4 de maio de 2012

Reparações

Reparações?!
Sim, reparações!... mesmo que  posteriori do  muito que   foi  subtraído   de um coletivo racial, que aqui aportaram em condições terrivelmente adversas, há muito denunciam nas falas queixosas, lamuriosas de  seus "desvalidos", " bêbados", "loucos", insurgentes das primeiras horas.

Das falas solitárias daqueles que  vagueiam pelas ruas da cidade,  revelando  em si, como que  tatuados nos corpos, o real daqueles  que  foram marcados e lançados  na condição dos  (in)visíveis sociais, econômico e  politicamente.
Falas estas persistentes  que foram paulatinamente tomando fôlego,  reverberando nos becos,  nas vilas e nas favelas, das cidades e dos campos, com a força de  agrupar-nos através de nossas reminicências organizativas, culturais e religiosas, dando-nos sentido para um dizer  impossível de se calar.

Que num crescendo!...,   reverbera em nossa contemporaneidade, no vigor do discurso desejante  daqueles que dentre nós, conseguiram driblar de forma  estratégica uma contexto desfavorável,  galgando através do trabalho, da escolarização e de parcerias significantes , um espaço de articulação existencial inclusivo e instituinte, constituindo a partir dê,  novos redesenhos de exercícios de poderes, tão necessários para um por vir de visibilidade, sócio, econômico e político.

O tempo é o presente!
... Embora construir?!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Nesse corpo que habito!...

Descobri que pouco sei, que pouco conheço nesse corpo que habito. Sério!

Supunha,  que de há muito  estávamos  "juntos e misturados",  puro engano! Esse corpo que habito deu de me apresentar, assim na tampa,  o que eu ainda não conhecia  sobre ele, deixando-me desarrumada  face a  delicadeza e complexidade das revelações.

Advindo daí,  uma  agonia de  busca de  respostas  rápidas que melhor se encaixe à estas revelações e que  às  vezes,  não  dá,  não acontece, deixando uma sensação  frustrante  pelo não  conseguido e  que ao mesmo tempo, sinaliza para  a necessidade  de uma insistência,  para que alguma coisa possa acontecer.

Estou dizendo disso, prá falar da surra que ando levando nas aulas de natação,  desse meu corpo atarantado n'água, com as descobertas do não sabido que me tem sido revelado e ou que até então, eu não queria saber.  É de doer!...me perceber amendrontada, quase que acuada, frente  a  um saber ainda não elaborado, que urge enquanto   processo em andamento,  por   um retorno ao começo, enquanto um  treino, prá melhor ser apreendido.

Em verdade voz digo, do que se trata,  é  de um querer  saber da fruidez possível desse ato, que imagino existir, bem como  a do medo  do que poderá  advir, como conseqüência,  no processo de busca desse algo ainda não experienciado, não dominado. Insistir nesta busca, trás contido um preço  a se pagar. Eis aí a grande questão do  lidar com essas forças antagônicas, registradas em todo ser e não somente nesse corpo que habito,  é de todos e não de um.

Logo, dá-lhe  "caldos" , vexatórios!...
Mas, eu não abandono a raia!... 
 










quinta-feira, 15 de março de 2012





Decidi que quero aprender a nadar!...


Sim, cair n'água e bater as pernas alternadamente aos braços, concatenado  a  respiração, para assim deslizar com todo o corpo  nas águas, tendo como bordas, minha auto regulagem.
Desejo que acalento,  há muito contido, que ora realizo, numa profusão de sensações e sentimentos, que aos poucos estou redescobrindo e aprendendo como melhor lidar com os mesmos. Pois dentre os muitos impeditivos que ainda carrego, com os quais reluto em busca de dar vazão, nadar é um dos.

Criada que fui às margens das águas da ilha de Vitória, nos arredores dos Bairros de Caratoíra e Santo Antônio, muito cedo aprendi que filha que obedecia, não se banhava nas águas da "maré", espaço este
privilegiado daqueles que ousavam transgredir. Volte meia,  um  se perdia na magia dessas águas, transcendia,  iluminando-se e não voltando mais,  deixando um corpo inerte a boiar, dias após.

Real que impactava a todos, amedrontava por uns tempos a garotada, recrudescia o olhar de controle das mães, na casa de meus pais principalmente..., mas não o sufiente, para impedir que eles, os "desobedientes",  abandonassem a busca do prazer contido nesse jogo de lançar-se às águas, e deslizar o corpo em seu espelho cristalino de movimentos ondulantes,  nem muito menos o meu, contido e adiado, mas não abandonado. 

Me apresento para o primeiro dia de aula,  Amanda uma jovem professora, com idade de ser minha filha, delicada, que me chama o tempo todo de aula de Dona Sonia!...  com ela estou me  iniciando nos fundamentos da natação. O  meu eu, o de desvendar o permitido, logrando  o quanto possível o que é do real.
Para, então ainda,  experiênciar um aprendizado, o de colocar-me num espaço, mesmo que  artificial e reprezado de uma piscina,  na condição de um não saber, do como me portar,  frente aos  descaminhos das águas, enfrentando um quê de enigmático em mim, não usual,  que remete para além  do  já conhecido e que muito  surpreende.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

"Sua cor preferida era Lilás!..."



Neste último final de semana de Fevereiro, minha tia/avó, Estélida de 95 anos , faleceu, este seu derradeiro ato, remeteu-me mais uma vez, a um estado de  desamparo, que é inevitável diante  uma perda dessa magnitude; em busca de  algo que pudesse fazer frente a angustia desse real, dormi e sonhei com o viço das flores  das barracas da feira livre do bairro; na manhã de sábado, antes de seu sepultamento, dirigi-me à feira livre do bairro mais próximo e adquiri  lindas hortênsias," Sua cor preferida era Lilás!..."  e assim eram as flores em sua honra.

Ora acalentada!... É vida que segue!...





terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

(Más)cara do novo

O real do envelhecer, tem me fustigado  nesses últimos tempos. Por mais que me utilize de máscaras que possam atenuá-lo, este insiste em me provocar , descortinando as ilusões de uma tentativa de  encobrir marcas aí  contidas. É um novo que vislumbro  nas faces de meus  pais, quando neles  me percebo.

Não basta cobrir os cabelos grisalhos com tintas acobreadas..., besuntar rostos, braços e pernas com  cremes que prometem rejuvenescer,  incorporar a atividade física como complemento do café da manhã,  o envelhecer tens leis próprias, limites bem  definidos que por mais que se negue, se impõe e  realiza sua intervenção em nosso corpo, em nossa imagem  no que  equivocadamente é  percebido só no Outro.

Outro dia, uma pessoa amiga, relatou-me o desapontamento por descobrir, junto aos seus pares, que já não tem a mesma facilidade de  acessar de memória,  informações profissionais guardadas,  com a mesma precisão de detalhes,  que o fazia  detentor de um certo  poder em sua equipe de trabalho, "...Ando cansado, com o rasciocínio mais lento, minha cabeça já não me acompanha, o escritório a mil e eu assim!!...."

Comparece através da resistência declarada, de um não saber,  do como  lidar com o "ócio" de uma pretensa aposentadoria, considerando, ainda ter  um corpo prioritariamente adestrado para o trabalho e adormecido para outras possibilidades. "  O que vou fazer de minha  vida! Eu sempre trabalhei...."

"Falar da velhice incomoda porque expõe o limite ao qual todos nós somos submetidos. Falar da velhice desacomoda, exigindo certa acomodação dos traços e dos restos advindos pelas perdas, pelas mudanças da imagem e na relação com o Outro. A velhice exige novas transcrições e traduções. Ela desacomoda muitos "restos" deixados em qualquer canto à espera de um tratamento possível; desacomoda a procrastinação, desacomoda os futuros não cumprindos - mas que gostaríamos de realizar -, desacomoda a idéia de imutabilidade ou de permanência, desacomoda os ideais e as certezas nas quais todo sujeito busca se alojar. A velhice desacomoda, incomoda, principalmente nesse mundo permeado de máscara do novo." MusidaÂngela - "O Sugeito não envelhece - Psicanálise e velhice". (2006, p.16)

Assim o é!...
Envelhecer  para quem se aventura, é vida!
Desafiante aventura com um  fim estabelecido!
Aventuro-me! Vivo.